segunda-feira, 15 de julho de 2019

O Culto à Virgem Maria e a Cidade de Tiradentes


Texto do sócio Olinto Rodrigues dos Santos Filho




        
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O culto a Maria Mãe de Jesus vem do início da Era Cristã, manifestando-se a sua iconografia em antigos mosaicos e murais no inicio da idade média e no império bizantino. No reino de Portugal a representação da Virgem data de tempos muitos antigos, podendo ainda ser vistas imagens medievais em pedra ançã e madeira, como a antiga imagem de Nossa Senhora da Oliveira da colegiada de Guimarães, ou a virgem da Catedral de Braga e a Virgem de Vandoma, a padroeira da cidade do Porto.

A primeira imagem da Virgem que aportou no Brasil veio nas caravelas de Pedro Álvares Cabral e retornou com ele para o reino. Ainda restam imagens quinhentistas da Virgem na cidade de salvador, Vitória e São Paulo.

A invocação mais querida da Virgem em Portugal e no Brasil foi a Imaculada Conceição, dogma defendido pelos franciscanos e pela casa real portuguesa e só instituído pontificiamente em 1854. Desde o reinado de D. João IV, a Imaculada Conceição é patrona do reino e recebeu do próprio rei a coroa de Portugal.

Ao se descobrir o ouro no atual território de Minas Gerais, logo se seguiu as construções de capelas rústicas de barro, madeira e palha, onde eram colocadas as imagens dos santos de devoção. Assim, nasceram as primeiras capelas e matrizes, muitas delas dedicadas a Virgem, sob a invocação do Pilar (Ouro preto, São João del Rei, Congonhas do Sabará, Pitangui); Nossa Senhora da Conceição (Antônio Dias de Ouro Preto, Serro, Prados, Raposos, Ribeirão do Carmo, Sabará, entre outras); Nossa Senhora do Bom Sucesso (Caeté), Nossa senhora de Nazaré (Cachoeira do Campo, Morro Vermelho, Inficionado). Muitas capelas  foram dedicadas à Virgem, espalhadas por todo o território mineiro. Ainda nas primeiras décadas do setecentos, surgiram as irmandades de Negros em torno da invocação de Nossa Senhora do Rosário e em meados do século as irmandades de Pardos ou Mulatos sob a égide de Nossa Senhora das Mercês, Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora da Boa Morte. Ainda nos fins do século, aparecem as irmandades dedicadas à virgem das Dores. Muitas foram as invocações da virgem em Minas como Madre de Deus, Mãe dos Homens, Piedade, Penha de França e Socorro...


      
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Na antiga Vila de São José del Rei, hoje Tiradentes, a Virgem Maria esteve presente em igrejas e capelas, embora o padroeiro seja Santo Antônio de Pádua. Na igreja matriz funcionaram as irmandades de Nossa Senhora da Piedade, cujo fim era assistir aos doentes, encarcerados e enterrar os mortos; a Confraria de Nossa Senhora do Terço dos Homens Brancos; a Confraria de Nossa Senhora da Conceição dos Estudantes, cujo altar é dos mais antigos da igreja.


                  
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Além das irmandades, a igreja ainda contou com o culto de Nossa Senhora do Pé da Cruz. Ainda no início dos setecentos fundou-se a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos negros africanos, cuja capela já funcionava em 1727, hoje substituída pelo belo templo atual, de meados dos setecentos. Em 1754 os pretos crioulos e pardos fundaram a Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, que construiu sua capela no ultimo quartel do século XVIII e ainda hoje funciona. Já no século XIX, 1801 fundou-se a Confraria de Nossa Senhora das Dores, na igreja de São João Evangelista, de curta duração. Ainda em meados do século XIX a Confraria da Santíssima Trindade foi fundada sob o patrocínio de Nossa Senhora das Dores. Em todas a s igrejas e capelas imagens da Virgem ocupam lugares nos nichos dos altares, como Nossa Senhora da Conceição, no Canjica; Nossa Senhora do Patrocínio e Conceição na capela do Bom Jesus; Nossa Senhora do Carmo na capela de São Francisco de Paula; Nossa Senhora dos Remédios na igreja de São João Evangelista; Nossa Senhora do Parto na igreja de Nossa Senhora das Mercês; Nossa Senhora das Dores no Santuário da Santíssima Trindade.

Muitas capelas filiais foram dedicadas à Virgem como Nossa Senhora do Pilar do Padre Gaspar, anterior a 1732; Nossa Senhora da Penha de França do Bichinho, por volta de 1729; Nossa Senhora da Penha da Lage (hoje município de Resende Costa); Nossa Senhora da Conceição do Mosquito (hoje município de Coronel Xavier Chaves); Nossa Senhora do Carmo do Japão (atual município Carmópolis de Minas); Nossa Senhora da Oliveira (atual município de Oliveira); Nossa Senhora da Glória de Passatempo; Nossa Senhora Aparecida de Cláudio (atual município de Cláudio) entre outras.

Imagens de grande valor artístico, cultural e religioso compõem o acervo da paróquia de Tiradentes, das quais pode se citar a bela imagem de Nossa Senhora da Piedade, da matriz de Santo Antônio, obra datada por volta de 1746; Nossa Senhora do Terço, obra portuguesa da primeira metade dos setecentos; Nossa Senhora da Conceição, obra também setecentista, repintada em 1923 ou a imagem de roca de Nossa Senhora do Pé da Cruz, datada por volta de 1730. Da igreja de São João Evangelista um conjunto de imagens do mesmo santeiro anônimo citamos a de Nossa Senhora do Pé da Cruz, de grandes dimensões, a de Nossa Senhora das Dores do altar lateral, e as imagens de roca de Nossa Senhora das Dores e de Remédios, todas obras de fins do século XVIII. Na igreja de Nossa Senhora do Rosário, duas imagens da padroeira, ambas portuguesas, da primeira metade do século XVIII compõem o acervo. Na igreja de Nossa Senhora das Mercês venera-se a belíssima imagem da padroeira, obra mineira, de cunho rococó, datável do ultimo quartel do século XVIII, além de Nossa Senhora do Parto em técnica de tela encolada. Nas capelas de Bom Jesus da Pobreza, São Francisco de Paula e Canjica pode se ver ainda as imagens de Nossa Senhora da Conceição esculpida em candeia e Nossa Senhora do Patrocínio, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora da Conceição, sendo a ultima já oitocentista.


   
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O culto Mariano era definido por várias festas como: Nossa Senhora do Rosário em 07 de outubro, Nossa Senhora das Mercês em 24 de setembro, Nossa Senhora da Conceição em 08 de dezembro, Nossa Senhora das Dores na ultima sexta-feira da quaresma. No século XIX instituiu-se o mês de Maria em maio, com terços, ladainha e coroações no trono do altar mor da matriz. O culto à Virgem ainda continua vivo com a dedicação de novas capelas como da Nossa Senhora Auxiliadora na Candonga, Nossa Senhora da Paz no Alto da Torre; Nossa Senhora de Fátima na Caixa d´Água, sem olvidar a de Nossa Senhora da Saúde, no balneário de Águas Santas, esta datada do inicio do século XX.


               
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Na primeira metade do século XX surgiu a chamada “Nossa Senhora Visitadora” que nada mais era que um oratório portátil com a imagem do Coração de Maria, que constantemente circulava pelas casas dos fiéis, onde era feita uma novena, com terço e outras orações. A família que recebia Nossa Senhora Visitadora armava um cuidadoso altar, decorado com cortinado, flores, velas, onde era colocado o oratório e após as rezas era oferecido um café aos participantes. Em meados do século XX, Maria da Conceição Lopes, também zeladora da matriz de Santo Antônio e presidente do Apostolado da Oração era a responsável pela Nossa Senhora Visitadora. Ainda hoje esta prática continua nos bairros da cidade, sendo agora com outras invocações da Virgem e outros santos.

              
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Outro registro histórico que merece menção é a existência da capela de Nossa Senhora do Bom Despacho no Arraial do Córrego, hoje integrado a zona urbana de Santa Cruz de Minas. A capela ficava sobre um platô na encosta da Serra de São José e datava das duas primeiras décadas do século XVIII, uma vez que lá foi fundada a irmandade do Bom Jesus dos Passos em 1721 e transferida para a matriz em 1727. Com a decadência da mineração o Arraial foi se desaparecendo, e a capela entrou em ruínas, sendo o acervo transferido para a matriz em 1832. A irmandade do Santíssimo Sacramento emprestou parte das peças para a confraria da Santíssima Trindade, inclusive a imagem da Virgem. Em 1860 a imagem de Nossa Senhora do Bom Despacho e outras “que estão na capela desde 1834 por consentimento da mesma”, foram devolvida à matriz. A peça lá permaneceu até cerca de 1965, quando desapareceu. Tratava-se de uma imagem setecentista da Virgem de pé, com o Menino Jesus no braço esquerdo e uma pena na mão direita. Infelizmente é uma perda irreparável.


              
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Ainda pode-se citar a criação já no século XX da Pia União de Nossa senhora que cultuava a imagem de Nossa Senhora de Lourdes e saía incorporada nas procissões com a sua bandeira azul e branca, como também a irmandade das “Filhas de Maria” composta por moças solteiras que vestiam um uniforme todo branco com fita azul ao pescoço e cuidavam da limpeza e ornamentação da matriz. Também houve a Congregação Mariana que aglutinava homens e mulheres identificados pela fita azul no pescoço.


                                                             
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Nota carinhosa e interessante foi a fundação em 1914 da irmandade de Nossa Senhora de Lourdes, na igreja de Nossa Senhora do Rosário que era exclusiva de meninas vestidas de branco e para tal se adquiriu no Rio de janeiro uma imagem de Lourdes importada der Paris. Para os meninos foi criada a Irmandade de São Geraldo na mesma igreja.



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Imagens:

1 - Andor de Nossa Senhora da Conceição, Matriz de Santo Antônio, 8 de dezembro de 1954, comemoração do Centenário da Instituição do Dogma da Imaculada Conceição. (acervo próprio)
2 - Nossa Senhora da Piedade. Madeira esculpida e policromada, cerca de 1746, Matriz de Santo Antônio. Livro Devoção e Arte (fotografia de Pedro David).
3 - Nossa Senhora do Terço. Madeira esculpida e policromada, primeira metade do séc. XVIII, procedência portuguesa. Matriz de Santo Antônio. Livro Devoção e Arte (fotografia de Pedro David).
4 - Nossa Senhora Menina, do conjunto de Sant'Ana Mestra. Madeira Esculpida, dourada e policromada, meados do séc. XVIII, procedência portuguesa. Matriz de Santo Antônio, Altar do Descendimento.  (fotografia de David Nascimento)
5 - Nossa Senhora do Rosário. Madeira esculpida e policromada, meados do séc. XVIII, de procedência portuguesa, trono da Igreja de Nossa Senhora do Rosário.  (fotografia de David Nascimento)
6 - Nossa Senhora do Rosário. Madeira esculpida e policromada, início do séc. XVIII, de procedência portuguesa, nicho da sacristia da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, atualmente no museu da Liturgia (imagem da capela original). Acervo do Museu da Liturgia (fotografia de Eugênio Sávio).
7 - Nossa Senhora do Pé da Cruz, madeira esculpida e policromada, fim do séc. XVIII, de procedência mineira, trono do retábulo do altar mór da Igreja de São João Evangelista. (fotografia de David Nascimento)
8 - Nossa Senhora das Dores, madeira esculpida e policromada, fim do séc. XVIII, de procedência mineira, retábulo colateral da Igreja de São João Evangelista. A imagem foi furtada em 1994 e recuperada em 1998 com a perda total da policromia por ter sido mantida enterrada durante um ano. Inventário do IPHAN.
9 - Nossa Senhora das Dores, madeira esculpida, policromada e tecido, imagem de roca, cerca de 1801, de procedência mineira,  Igreja de São João Evangelista. Livro Devoção e Arte (fotografia de Pedro David)
10 - Nossa Senhora das Mercês. Madeira esculpida, dourada e policromada, segunda metade do séc. XVIII, de procedência mineira, trono da Igreja de Nossa Senhora das Mercês. Livro Devoção e Arte (fotografia de Pedro David)
11 - Nossa Senhora do Bom Despacho. Madeira esculpida e policromada, início do séc. XVIII, de procedência da desaparecida da antiga Capela de Nossa Senhora do Bom Despacho do Córrego, peça desaparecida da Matriz de Santo Antônio entre 1963 e 1970. Foto do início da década de 1960, Laboratório de Fotografia Sylvio Vascollos/UFMG.
12 - Nossa Senhora do Parto, tela encolada e policromada com mãos de madeira; fins do séc. XVIII e início do XIX; de origem mineira; pertencente a Igreja de Nossa Senhora das Mercês, atualmente no Museu da Liturgia. Livro Devoção e Arte (fotografia de Pedro David)
13 - Irmandade de Nossa Senhora de Lourdes composta por meninas durante a benção da imagem da padroeira adquirida na França. 14 de fevereiro de 1914. Foto de acervo particular.
14 - Coroação de Nossa Senhora na Matriz de Santo Antônio, 1934 (observar a imagem de Nossa Senhora do Pé da Cruz vestida de branco para a coroação), acervo particular. 
15 - Nossa Senhora da Piedade, terracota policromada, de procedência portuguesa, séc. XVIII, Igreja de Nossa Senhora das Mercês, atualmente no Museu da Liturgia (fotografia de Eugênio Sávio).
16 - Nossa do Desterro, têmpera sobre madeira, de autoria de Manoel Victor de Jesus, 1788, Matriz de Santo Antônio, atualmente no Museu da Liturgia (fotografia de Eugênio Sávio).
17 - Nossa Senhora da Conceição, madeira esculpida e policromada, séc. XVIII, de procedência mineira, Capela de Santo Antônio do Canjica, atualmente no Museu da Liturgia. A imagem foi furtada na Igreja de Nossa Senhora das Mercês e encontrada em antiquário na Rua Alagoas, em Belo Horizonte. (fotografia de Eugênio Sávio).
18 - Nossa Senhora do Carmo, madeira esculpida e policromada, meados do séc. XVIII, procedência mineira, Capela de São Francisco de Paula.  (fotografia de David Nascimento)
19 - Nossa Senhora do Patrocínio, madeira esculpida, dourada e policromada, primeira metade do séc. XVIII, de procedência mineira, Capela do Bom Jesus da Pobreza. (fotografia de David Nascimento)
20 - Nossa Senhora do Conceição, madeira esculpida, dourada e policromada, início do séc. XVIII, de possível origem portuguesa, Matriz de Santo Antônio. Peça repintada em 1923. Do livro "A Matriz de Santo Antônio Tiradentes" (fotografia de Nelson Con, 2009). 
21 - Ilustração do Compromisso da Irmandade de Nossa Senhora das Mercês, gravura em metal, de origem espanhola, datada da primeira metade do séc. XVIII. 
22 - Ilustração do Compromisso de Nossa Senhora das Dores, 1801, autoria de Manoel Victor de Jesus, desenho a bico de pena sobre o papel.

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